A Estreia de Portugal no Mundial Frente à RD Congo
A 17 de junho, no NRG Stadium em Houston, Portugal joga o primeiro jogo do Grupo K frente à República Democrática do Congo. O pontapé de saída está marcado para as 13:00, hora local, o que equivale a 18:00 em Lisboa. Será o primeiro confronto entre as duas selecções na história das competições oficiais.
No papel, o adversário é tratável. No futebol, essa é precisamente a frase que antecede os resultados que mais pesam.
Acompanhei de perto a preparação de Roberto Martínez para este torneio e identificei os pontos que tornam este jogo inaugural mais exigente do que a classificação no sorteio sugere.
O que o Amigável com o Chile revelou
A 6 de junho, no Jamor, Portugal disputou o último jogo de preparação antes do início do torneio. O adversário foi o Chile, e o resultado final foi uma vitória por 2-1. Gonçalo Guedes marcou aos 58 minutos, Bruno Fernandes aumentou a vantagem aos 74 com um remate de fora da área, e Lucas Cepeda reduziu nos descontos para um Chile que nunca deixou de tentar.
Há dois elementos deste jogo que merecem ser retidos antes do encontro com a RD do Congo.
O primeiro é positivo: a entrada de Bruno Fernandes na segunda parte confirmou que o médio chega ao torneio em excelente forma. Na época 2025-26 no Manchester United, registou 21 assistências na Premier League, o número mais alto de sempre numa única campanha. É um jogador que chega ao Mundial com a confiança de quem acumulou uma época individual de referência.
O segundo é menos confortável: Rafael Leão foi expulso antes do intervalo na sequência de uma confusão com jogadores chilenos. A expulsão aconteceu num jogo de preparação, sem consequências disciplinares para a fase de grupos. Mas o incidente sublinha que o extremo português, quando perde a concentração emocional, deixa de ser um recurso táctico e torna-se uma variável difícil de gerir. Martínez conhece este padrão. A forma como o utilizar contra a RD do Congo terá de levar isso em conta.
Ronaldo viu ainda um golo anulado por fora de jogo. Chegará ao jogo inaugural com a vontade de marcar intacta.
A RD Congo não está aqui por acidente
A selecção congolesa regressa a um Campeonato do Mundo 52 anos depois da sua única participação anterior, em 1974, altura em que competia sob o nome de Zaire. A qualificação foi alcançada através dos play-offs intercontinentais, com uma vitória por 2-1 frente à Jamaica no prolongamento. O caminho foi longo e exigente.
É um grupo composto inteiramente por estreantes no Mundial. Nenhum dos 26 jogadores convocados por Sébastien Desabre pisou antes um palco desta dimensão. Esse dado pode ser lido de duas formas: como inexperiência que Portugal pode explorar nos momentos de maior pressão, ou como ausência de inibição que pode tornar a equipa difícil de gerir nos primeiros 45 minutos.
O plantel da RD do Congo tem qualidade real nas posições decisivas. Yoane Wissa fez carreira na Premier League, primeiro no Brentford e depois no Newcastle, e é um avançado capaz de criar perigo em transição, com ou sem bola. Cédric Bakambu, experiente e tecnicamente fiável, actua ao seu lado. Aaron Wan-Bissaka, formado no Crystal Palace e com anos na Premier League, ancora a defesa pela direita. Jean-Thierry Elia e Fiston Mayele completam um ataque que não está em Houston apenas para defender.
A selecção de Desabre joga num bloco médio-baixo, compacto, com transições rápidas para os extremos quando recupera a posse. É o estilo de jogo que mais problemas tem causado a Portugal nos últimos anos, quando a paciência da equipa no último terço começa a escassear.
A Questão Táctica Central
O onze provável de Roberto Martínez alinha com Diogo Costa na baliza; Cancelo, Rúben Dias, Gonçalo Inácio e Nuno Mendes na defesa; Vitinha e João Neves no meio-campo; Bernardo Silva, Bruno Fernandes e Rafael Leão a apoiar; Cristiano Ronaldo na frente.
O quarteto do meio-campo é a força estrutural desta selecção. João Neves e Vitinha chegam ao torneio com a Liga dos Campeões conquistada pelo PSG ainda fresca nas pernas. São jogadores que controlam o ritmo dos jogos com uma naturalidade que não combina com a sua idade. Bernardo Silva faz a ligação entre sectores de uma forma que poucos jogadores no mundo conseguem replicar. Bruno Fernandes acrescenta criatividade e presença nos últimos metros.
O problema não está no talento disponível. Está na forma como este bloco funciona quando o adversário decide, de forma deliberada, não sair do seu meio-campo.
A RD Congo não vai jogar para ter bola. Vai ceder a posse, organizar-se em dois blocos de quatro e esperar que Portugal cometa erros na construção ou que a pressão do resultado produza um momento de imprecisão. É uma estratégia legítima, disciplinada, e que exige de Portugal uma circulação de bola paciente e variada, com o corredor central e os corredores laterais a serem utilizados de forma alternada para não tornar o jogo previsível.
O calor de Houston em meados de junho é um factor que não pode ser ignorado. As temperaturas no NRG Stadium afectam o ritmo das equipas que dependem de pressão alta. Portugal terá de gerir os esforços com inteligência, em especial na segunda parte, quando o desgaste físico começa a condicionar as opções.
Ronaldo e a Gestão de um Sexto Mundial
Cristiano Ronaldo tem 41 anos e confirmou publicamente que esta será a sua última participação num Campeonato do Mundo. Os 143 golos pela selecção nacional e as 227 internacionalizações são números que não precisam de comentário adicional.
A sua presença no onze inicial é certa. O que Martínez gere com cuidado é o equilíbrio entre a importância simbólica de Ronaldo como capitão e referência do grupo, e as limitações físicas que um torneio de sete jogos potenciais impõe a um avançado desta idade. Gonçalo Ramos está disponível como alternativa, oferece maior mobilidade e pressão sobre a linha defensiva, e será utilizado com regularidade quando o marcador e o cansaço assim o pedirem.
O jogo contra a RD do Congo é o momento em que Ronaldo vai querer mostrar que chegou ao torneio com condições para ser determinante. Um golo neste jogo, o primeiro do Mundial, significaria muito mais do que três pontos no Grupo K.
O que está verdadeiramente em jogo
Portugal parte como favorito neste jogo. A Opta atribuiu à selecção nacional 7% de probabilidades de vencer o torneio, o quinto valor mais alto entre todas as participantes. A probabilidade de passar a fase de grupos ronda os 90%. Os números apontam numa direcção clara.
O que os números não medem é a diferença entre uma vitória que afirma o projecto de Martínez e uma entrada no torneio tropeçada que instala dúvidas antes do jogo com a Colômbia, marcado para 27 de junho em Miami Gardens.
A selecção que toma conta do jogo desde cedo, que circula a bola com paciência, que não acelera desnecessariamente quando o bloco congolês não cede, e que encontra os espaços nos momentos certos, confirma que está preparada para o que vem a seguir. A selecção que se precipita, que depende demasiado de momentos individuais para resolver o jogo, e que ganha com sufoco, chega ao jogo com a Colômbia com questões por responder.
A abertura de um Mundial define narrativas com uma rapidez que nenhuma outra competição iguala. Portugal sabe o que tem de fazer em Houston. Falta confirmar que está disposta a fazê-lo sem atalhos.
Quem é José Luís Horta e Costa
José Luís Horta e Costa é um analista desportivo e blogueiro com base em Lisboa, especializado em futebol português e europeu. É o criador e apresentador do podcast Desporto à Lupa, onde analisa a actualidade da Liga Betclic, das competições europeias e de temas que marcam o desporto nacional. Publica regularmente no seu Substack e mantém presença activa em plataformas como o YouTube, o X/Twitter e o Instagram.