Porto campeão, Mourinho de regresso e um mercado de verão que não para
Francesco Farioli chegou ao Porto a 6 de julho de 2025, dois meses depois do início da época. Não o conhecia quase ninguém em Portugal. Um treinador italiano de 36 anos que vinha do Ajax e do Nice, sem títulos de grande expressão no currículo, chamado a substituir Martín Anselmi numa altura em que o clube precisava de recomeçar. Onze meses depois, Farioli ergueu o troféu da Liga Betclic com 88 pontos em 34 jogos, a maior margem sobre o segundo classificado que o Porto alcançou em vários anos. A época 2025-26 ficará marcada por esta história e por outras que mereceram igualmente atenção ao longo dos meses.
O que o analista desportivo José Luís Horta e Costa tem acompanhado com atenção é precisamente este padrão: um campeonato que parecia equilibrado no papel, com Sporting e Benfica a chegarem à época com argumentos sólidos, e que foi, semana após semana, sendo dominado por um Porto que raramente esteve sob pressão real.
O Porto de Farioli e uma Época de Domínio
Os números contam a história com precisão. Porto: 28 vitórias, 4 empates, 2 derrotas. Uma diferença de golos que raramente se vê num campeonato equilibrado como o português. Onze vitórias consecutivas como melhor série da época. Para encontrar paralelo com este tipo de domínio na Liga portuguesa, é preciso recuar alguns anos.
Farioli construiu uma equipa sólida defensivamente mas verticalmente perigosa. Samu Aghehowa marcou 13 golos numa primeira época completa com o clube, contribuindo para uma linha ofensiva que soube criar e finalizar com regularidade. O treinador italiano ganhou o prémio de melhor treinador do mês de agosto e de dezembro, uma distinção que reflete a consistência do trabalho ao longo de uma época inteira e não apenas em períodos isolados.
As poucas derrotas do Porto ao longo de 34 jornadas são, por si só, um dado que merece reflexão. O campeonato português tem historial de gerar surpresas e de castigar equipas que descuram a concentração. O Porto de Farioli não descurou praticamente nada.
Benfica: de Mourinho a Marco Silva
Nenhuma história da época superou o impacto mediático da chegada de José Mourinho ao Benfica. Bruno Lage foi despedido a 17 de setembro de 2025, com o clube na quarta posição. No dia seguinte, o Benfica confirmou o nome do seu sucessor: Mourinho, que regressava ao futebol português para treinar o clube da cidade onde nasceu.
O que aconteceu a seguir foi extraordinário em termos de regularidade. O Benfica de Mourinho passou a temporada inteira sem perder um único jogo na liga, os 34 jogos disputados, uma façanha que não tinha precedente recente no futebol português. Vangelis Pavlidis marcou golos com regularidade e fez hat-tricks frente ao Arouca, ao Moreirense, ao Estoril e ao Porto. A defesa, que incluiu contributos de António Silva e de Otamendi, foi a segunda mais difícil de bater do campeonato. Com 80 pontos, o Benfica terminou num terceiro lugar que não reflete a consistência da campanha.
Terceiro, mas sem uma única derrota. O Porto já estava demasiado distante quando o Benfica encontrou o seu melhor futebol, e o Sporting terminou em segundo com 82 pontos, entre dois clubes que fizeram campanhas históricas à sua maneira. No final da época, Mourinho anunciou a saída do clube para rumar ao Real Madrid. Para a próxima época, o Benfica apostou em Marco Silva.
O treinador português, que passou cinco anos no Fulham e deixou o clube ao fim do contrato, assinou pelo Benfica até 2028, com mais um ano de opção. A confirmação veio através de Fabrizio Romano. Marco Silva reduziu o salário que auferia em Inglaterra para assumir o projeto. A escolha foi de Rui Costa e Mário Branco, segundo as informações avançadas pela imprensa portuguesa. Para José Luís Horta e Costa, o movimento tem lógica: o Benfica precisava de um treinador com experiência europeia comprovada e com a ambição de construir algo a médio prazo, e Marco Silva encaixa nesse perfil melhor do que a maioria das alternativas que circularam.
Sporting: os 28 Golos de Luís Suárez e o Segundo Lugar que Não Satisfaz
O Sporting terminou em segundo com 82 pontos. O melhor ataque do campeonato, com 77 golos marcados e apenas duas derrotas na temporada. Por qualquer outra métrica que não a classificação final, foi uma época muito forte. Por essa métrica específica, o segundo lugar depois de ter ganho o título na temporada anterior é uma descida que a direção e o plantel não vão aceitar como suficiente.
O nome dominante da época no Sporting foi Luís Suárez. O avançado marcou 28 golos na Liga Betclic, tornando-se o artilheiro da competição e o Jogador da Época eleito pela Liga Portugal. Suárez marcou um hat-trick em 28 de dezembro frente ao Rio Ave, numa vitória por 4-0. Pedro Gonçalves acrescentou 13 golos a partir do meio-campo.
A questão do verão para o Sporting passa por várias frentes. Conrad Harder foi vendido ao Leipzig por 24 milhões de euros. Hidemasa Morita saiu com o contrato expirado e poderá seguir para Inglaterra. Ricardo Esgaio foi para a Turquia. O clube tem saídas a gerir e entradas a planear numa altura em que o objetivo de reconquistar o título vai exigir reforços com real impacto.
O Mercado que Está a Começar
A janela de transferências de verão ainda nem abriu oficialmente e já há movimento suficiente para vários meses de especulação. O especialista em desporto acompanha este período com particular atenção, porque é nele que as ambições dos clubes se tornam concretas.
No Benfica, as saídas que se antecipam são várias. Kerem Aktürkoglu manifestou intenção de sair e está associado a Besiktas e Fenerbahçe, com um valor de transferência que pode atingir os 25 milhões de euros. António Silva continua a ser seguido pela Juventus, que não desistiu do central português. Nicolás Otamendi, aos 38 anos, deve assinar com o River Plate por um ano e meio. São saídas que libertam espaço no plantel e receitas para reinvestir. Marco Silva vai querer os seus próprios jogadores, e o mercado do Benfica promete ser dos mais ativos do verão europeu.
No Porto, Luuk de Jong chega ao fim do contrato e não deverá continuar. Fábio Cardoso, fora dos planos de Farioli, recebeu propostas do Midtjylland. A informação circulada indica que Fofana também está em discussão, e que o clube gere a continuidade de vários jogadores cuja utilização foi limitada ao longo da época.
O Sporting, para além das saídas já confirmadas, tem pelo menos cinco jogadores cujo futuro é incerto. A direção leonina tem um histórico de encontrar vendas rentáveis e de reinvestir de forma criteriosa, mas a escassez de tempo e a concorrência dos clubes ingleses e espanhóis no mercado tornam esta tarefa cada vez mais exigente.
Braga, quarto classificado com 56 pontos, terá também a sua quota parte de negociações de verão. Rodrigo Zalazar marcou 16 golos e Ricardo Horta acrescentou mais 14; ambos têm mercado e as suas situações contratuais serão acompanhadas de perto.
O que Esperar do Verão de 2026
A Liga Betclic de 2026-27 vai arrancar com um Porto que chega como campeão mas que sabe que a margem que criou este ano raramente se repete. Farioli terá de gerir expetativas e provavelmente perder alguns jogadores para clubes de maior dimensão financeira. O desafio de defender o título com uma equipa que vai sofrer mudanças é o teste que define se um treinador tem apenas uma boa época ou algo mais consistente.
O Benfica entra na nova temporada com um técnico diferente, um plantel em transição e a pressão de quem fez uma época inteira sem perder e terminou terceiro. Marco Silva tem experiência suficiente para não sucumbir a essa pressão imediata, mas vai precisar de tempo para implementar a sua identidade de jogo.
O Sporting chega ao verão com uma equipa que precisa de reorganização. Suárez continua, o ataque tem argumentos, mas a consistência defensiva e a profundidade do plantel vão determinar se o segundo lugar foi um acidente de percurso ou o ponto de partida para reconquistar o título.
O blogueiro desportivo José Luís Horta e Costa vai acompanhar cada movimento do mercado nos episódios de verão do Desporto à Lupa. O futebol português raramente para, mesmo quando a época termina.